O pai dela vendeu a moto que usava pra trabalhar. Depois vendeu a aliança que era da esposa. Contou o dinheiro em cima da cama da filha, nota por nota, e não deu nem metade do que a operação custa.
Agora ele vai pro serviço de carona, ou a pé, mais de uma hora andando. Trabalha o dia inteiro e volta direto pro hospital, dormir numa cadeira do lado dela.
O motivo disso tudo cresce do lado esquerdo da cabeça dela. Começou um carocinho atrás da orelha, pequeno de esconder com o pente. Hoje não tem cabelo que cubra.
E ele não cresce só pra fora. Por dentro, vai apertando a parte que faz o olho enxergar. Toda quarta medem ele com uma fita, e o número nunca desceu. A vista do olho esquerdo escurece no mesmo ritmo.
O doutor foi direto: existe uma operação que tira ele inteiro. Tirou, ela volta pra casa, volta pro irmão de onze anos que ela criou desde bebê e que ainda acha que ela só foi fazer uns exames.
Só que dentro daquela casa, a conta parou. O que dava pra vender, já foi. O que o pai ganha segura o mês, e olhe lá.
Agora são duas contas. A do caroço, que anda toda semana. E a do dinheiro, que sozinha aquela família não faz andar.
Ela passou onze anos sendo a mãe daquela casa sem pedir nada pra ninguém. A primeira vez que ela precisa, é essa.